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Música de brinquedo 

O termo técnico talvez fosse “disco de covers”, pois o novo trabalho da banda mineira Pato Fu empenha-se em reproduzir à risca os arranjos originais de temas conhecidos nas vozes de Rita Lee, Roberto Carlos, Paul McCartney, Tim Maia, Elvis Presley, Temptations, Amelinha, Ritchie, Titãs, Paralamas do Sucesso, Pizzicato Five e B.J. Thomas. Mas a sonoridade, apesar de produzida à base da cópia, é totalmente diferente dos originais. Música de Brinquedo, como o nome ajuda a adivinhar, foi inteiramente gravado com o acompanhamento de instrumentos infantis e assemelhados.

De piano de brinquedo e sax de plástico a Genius e teclado-calculadora, vale todo instrumento que não seja “de verdade”. No site www.patofu.com.br, há um making of do disco, autoexplicativo quanto aos brinquedos e à graça e dificuldade de fazê-los tocar música, digamos, “séria”. “Deu muito trabalho. A gente não tinha domínio sobre os instrumentos”, afirma a vocalista da banda, Fernanda Takai, de 38 anos. “Tinha hora que alguém falava ‘não, é muito difícil’. Se não fosse John à frente, a banda teria desistido.”

Ela se refere a John Ulhoa, de 44 anos, seu marido, integrante do grupo e produtor do CD. John lança um argumento provocativo para justificar a ideia algo exótica e trabalhosa: “Para tocar esses instrumentos, tem que ter um descompromisso com a perfeição estética, tem que desligar a comichão de deixar tudo arrumadinho. A gente está precisando um pouco disso, as arestas andam tão aparadas que a música fica sem graça no final”. E explica um pouco mais: “Por ter ouvido de produtor, quando ouço música escuto o som da ferramenta que está sendo usada. Me dá um ‘eject’, um certo asco. Nosso disco é um contraponto à produção moderna, que chegou a um ponto saturado, asséptico”.

Foto: Divulgação

Capa do álbum Música de Brinquedo

Mas isso é teoria, e ele próprio afirma que o disco não tem outra intenção senão divertir – divertir crianças, adultos e a própria banda, completada por  e Lulu Camargo. John conta que a inspiração veio de um disco da série Classic on Toy que adquiriu nos anos 1990, no qual os personagens do desenho Snoopy apresentavam músicas dos Beatles tocadas em instrumentos de brinquedo. E lembra o velho Genius usado como sax barítono em Todos Estão Surdos. “Lulu precisava do som que o Genius dá quando a gente erra. Ele, que estudou música em Berkeley, tinha que ficar errando para gravar. É muito besta, mas divertido pra caramba”, diz, num elogio explícito ao “erro” e ao improviso em tempos de “perfeição” de pro-tools e outros milages tecnológicos.

Nina, filha de John e Fernanda, e seu amiguinho Matheus d’Alessandro, ambos com 6 anos, participam do disco todo, nos backing vocals. Demoraram três horas para gravar tudo que lhes cabia, segundo Fernanda. Nos shows – sim, o Pato Fu reproduzirá no palco a maluquice –, o grupo mineiro de bonecos Giramundo fará a vez dos pequenos, produzindo vozes não de crianças, mas de monstros Muppet, nas palavras de John. “Tem coisa quebrando já nos ensaios”, ele ri da encrenca de levar Música de Brinquedo ao palco. “Mas se quebra um elefantinho eu compro outro por R$ 15, não é como uma guitarra de US$ 2.000. Com R$ 50, volto com uma mala cheia de traquitanas.”

Lembrando que músicos costumam tratar as guitarras que compram como “brinquedinhos novos”, John evoca o pianinho de armário usado no disco: “Demos de presente para a Nina quando ela fez 4 anos. Ficou tocando nele um tempão, mas depois levei para o estúdio, usamos no disco da Érika Machado que produzi”.

Como essas historinhas demonstram, Música de Brinquedo forma uma nuvem de mistura entre o que é “coisa de adulto” e o que é “coisa de criança”. E, enquanto os adultos brincam, as crianças demonstram preocupações de gente grande com os erros cometidos em estúdio, como no texto lido por Nina em Todos Estão Surdos. Quando ouviu a gravação, ela percebeu que tinha falado “encarocalados”, em vez de “encaracolados”. “Expliquei que não estava certo, mas tinha ficado bom mesmo assim. Falei que não existe certo, nem errado”, diz Fernanda. “Na entrevista que faço com eles em 'Twiggy Twiggy', Matheus dizia que queria ter um peixe de estimação. Quando ouviu, perguntou: ‘Cadê a parte em que falo do meu peixe?’, tive que explicar que não coube. Eles já estão reclamando da edição!”, ela constata.

 

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Veja a matéria completa em: IG Cultura - 07/08/2010.

Pato Fu